
Ninguém veste a camisa no lugar errado
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"Hoje ninguém mais veste a camisa."
É uma das frases mais repetidas por quem lidera. O gestor olha para a equipe e vê gente fazendo o básico, evitando responsabilidade, emocionalmente distante. E conclui que o problema é de caráter, de geração, de vontade.
Eu proponho outra leitura, que vi se confirmar muitas vezes: o desinteresse costuma ser sintoma, não caráter. E o sintoma mais comum é o de uma pessoa no lugar errado, sem ninguém que a enxergue.
O acomodado que sabia o caminho
Vou chamá-lo de Danilo.
Três anos na mesma função. Ficava ali porque recebia comissão. Nenhuma iniciativa. Rendimento de mediano a péssimo. Se você perguntasse a qualquer pessoa da empresa, ouviria: acomodado. Se perguntasse a ele, ouviria a mesma coisa.
Eu via outra coisa. Via muita inteligência sem nenhuma energia de ação. E quando o ouvi, com a pergunta que faço a todo mundo, "o que você vê aqui, o que você sabe fazer, o que não é feito hoje que nos aproximaria do lugar aonde precisamos chegar?", ele trouxe clareza sobre o que precisava mudar no setor, e experiência de ter feito isso em outro lugar.
O que faltava não era vontade de trabalhar. Era confiança de que seria ouvido, e um líder que cobrasse dele aquela energia e reconhecesse o valor dele. A empresa tinha um protagonista calado e chamava isso de acomodação.
Fizemos o Mapa de Potencial Humano dele. Conversamos uma manhã sobre quem ele era e como podia usar isso. Naquele ano ele foi até a empresa e pediu um cargo, não uma promoção, mas o lugar em que sabia agir. Assumiu, rendeu, foi promovido para outra área. Anos depois, quando me encontra, ele agradece por eu ter mostrado a ele um valor que ele não estava se dando.
Conto como observação, sem número: foi o que vi acontecer.
Vestir a camisa depende de duas pessoas
Aprendi que engajamento não nasce de discurso motivacional. Nasce quando duas coisas acontecem ao mesmo tempo.
A pessoa precisa se enxergar. Às vezes ela tem a capacidade e não se sente capaz. Não vai usar o melhor dela, porque o melhor também depende do querer, e tudo começa com o querer. Mostrar a uma pessoa o que ela tem, e não o que falta, muda a relação dela com o próprio trabalho.
E o gestor precisa enxergar primeiro. Se o gestor entende, ele estimula. Se a pessoa entende e o gestor não, ela vai embora. Já vi isso acontecer: uma profissional do financeiro que queria mudar as coisas o tempo todo, um empresário que enxergou nela um perfil de vendas e ofereceu o comercial, e ela, presa à identidade de "sou do financeiro", recusou e saiu. Dois anos depois ligou para ele: estava gerindo um time de vendas, feliz, e ele tinha razão. A empresa perdeu uma pessoa que ela mesma demorou dois anos para enxergar.
Muitas vezes o ser humano é como o mamute criado a vida inteira como gambá: se vê como gambá, não como mamute.
O que fazer quando "ninguém veste a camisa"
- Antes de julgar, ouça. A mesma pergunta para cada pessoa: o que você vê, o que você sabe fazer, o que não é feito. Quem responde como protagonista tem energia guardada.
- Procure o lugar, não a culpa. A pessoa desinteressada na função atual brilha em alguma outra? Se sim, o problema é de encaixe.
- Mostre o que ela tem. Há uma diferença enorme entre "você não serve para isso" e "olha o que você tem, e olha onde isso é valioso". A segunda conversa faz gente pedir o lugar certo.
- Cobre e reconheça. Danilo não mudou sozinho. Mudou quando alguém pediu a energia dele e reconheceu quando ela apareceu.
O que a Fulgora faz com isso
A Fulgora lê o que cada pessoa tem para entregar, e a pessoa lê essa leitura antes do gestor, para se reconhecer nela. Depois, o gestor recebe a mesma leitura, comparada ao que a função pede, para saber onde estimular e onde realocar. Primeiro o gestor entende; depois a pessoa se vê; e então a chama acende dentro da empresa, não fora dela.
Porque ninguém veste a camisa no lugar errado. E quase todo mundo veste no lugar certo.
Se existe na sua empresa alguém que todo mundo chama de acomodado, comece por ele. Em vinte minutos, você me conta o caso e nós começamos a descobrir se é falta de vontade ou falta de lugar.